
A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório médico que atribui a “confusão mental” e as “alucinações” ocorridas na noite de 21 para 22 de novembro à combinação de três medicamentos usados no tratamento de crises de soluços. Segundo os médicos responsáveis, a interação entre pregabalina, clorpromazina e gabapentina pode ter desencadeado alterações cognitivas que levaram Bolsonaro a violar sua tornozeleira eletrônica — ato que resultou em sua prisão preventiva.
O documento, assinado pelo cirurgião geral Cláudio Birolini e pelo cardiologista Leandro Echenique, foi anexado à Ação Penal 2668 e detalha que a pregabalina, prescrita por outra profissional da saúde, teria gerado interação adversa com os demais medicamentos já utilizados pelo ex-presidente. Entre os efeitos colaterais listados estão desorientação, transtornos cognitivos, alucinações, sedação e perda de equilíbrio.
Os médicos afirmam que Bolsonaro vinha fazendo uso da clorpromazina e da gabapentina para controlar “crises de soluços incoercíveis”. A introdução da pregabalina, segundo o relatório, foi feita para otimizar o tratamento, mas a combinação teria provocado um quadro neurológico inesperado. Assim que os sintomas surgiram, os profissionais dizem ter suspendido imediatamente a pregabalina e restaurado o esquema medicamentoso anterior.
A defesa argumenta que o episódio que levou Bolsonaro a manipular a tornozeleira não representou tentativa de fuga, mas sim um comportamento “ilógico” decorrente da confusão mental induzida pelos remédios. Os advogados também citam a “idade avançada” do ex-presidente e o estresse causado pelo monitoramento judicial como fatores agravantes.
Na audiência de custódia, Bolsonaro afirmou ter sentido “uma certa paranoia” e chegou a acreditar que o dispositivo continha uma escuta, o que o levou a tentar remover a tampa do equipamento.
Com base nesses elementos, a defesa pediu ao STF a concessão de prisão domiciliar humanitária, alegando que o estado de saúde dele exige cuidados incompatíveis com a prisão preventiva. A decisão agora está nas mãos do ministro relator.
O caso reacende o debate sobre o uso off-label de medicamentos para condições como soluços persistentes e sobre os possíveis efeitos psiquiátricos de combinações que atuam no sistema nervoso central. Especialistas consultados por veículos de imprensa afirmam que interações entre pregabalina, gabapentina e fármacos sedativos como a clorpromazina podem, de fato, intensificar efeitos depressivos no SNC, embora cada situação dependa de dose, tempo de uso e condições clínicas do paciente.
Enquanto a defesa aguarda resposta do STF, Bolsonaro permanece detido preventivamente, e novos exames médicos devem ser anexados ao processo nos próximos dias.
