
O avanço do discurso de ódio contra mulheres nas redes sociais e sua conexão com episódios de violência de gênero tem impulsionado novas iniciativas legislativas no Congresso Nacional. Em meio às mobilizações do mês de março, marcado pelo Dia Internacional das Mulheres, parlamentares apresentaram ou retomaram projetos que buscam tipificar a misoginia como crime e responsabilizar conteúdos digitais que promovem hostilidade e incitação à violência contra mulheres.
Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSol-SP) apresentou o Projeto de Lei nº 6075/2025, que propõe criminalizar a promoção e a disseminação de conteúdos misóginos na internet, especialmente aqueles associados à chamada cultura “red pill”, em português: pílula vermelha.
A proposta pretende responsabilizar autores e, em alguns casos, plataformas digitais que permitam a circulação sistemática de conteúdos que incentivem humilhação, discriminação ou violência contra mulheres.
Segundo a parlamentar, o ambiente digital tem servido como espaço de difusão de ideologias que naturalizam a desigualdade de gênero e alimentam comportamentos violentos. “A misoginia online tem consequências concretas na vida das mulheres. O ambiente digital não pode ser um espaço de impunidade para quem promove violência ou discriminação”, afirmou Sâmia ao apresentar o projeto. Mais de 50 mil pessoas assinaram apoio ao chamado “PL anti-Red Pill”, que pode ser acessado neste link.
Se trata de um conjunto de crenças masculinistas, sustentadas em comunidades online que promovem ideias antifeministas, misóginas e, em muitos casos, discursos de ódio contra as mulheres.
Viralizada pelo norte-americano Andrew Tate, que se orgulha de ser misógino e de ultradireita, a red pill é uma ideologia que promove o ódio contra mulheres como identidade cultural e prática política. Tate e seus seguidores incitam ao desprezo pelas mulheres, à cultura da violência e à teoria da superioridade masculina.
Ele enfrenta diversos processos no Reino Unido e nos Estados Unidos por tráfico de pessoas, exploração sexual, sonegação fiscal e organização criminosa.
Se chama pílula vermelha em referência ao filme “Matrix” onde o protagonista deve escolher entre uma pílula azul ou uma vermelha, e despertar para a realidade ou não.
Uma das frases utilizadas permanentemente pelo movimento machista, estava estampada na camisa do Vitor Hugo de Oliveira Simonin, jovem preso acusado de participar do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. “Regret nothing”: não me arrependo de nada.
Dados recentes ajudam a dimensionar o alcance desse fenômeno. Um levantamento atualizado do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostra que 90% dos canais do YouTube identificados em 2024 com conteúdo misógino continuam ativos na plataforma. Dos 137 perfis analisados na pesquisa original, 123 seguem disponíveis e continuam publicando vídeos.
Além de permanecerem no ar, esses canais ampliaram significativamente seu alcance. Em 2024, os perfis ainda ativos somavam cerca de 19,5 milhões de inscritos. Atualmente, eles acumulam mais de 23 milhões de seguidores, crescimento de aproximadamente 18,5%. Também houve aumento no volume de conteúdo: os canais reúnem hoje cerca de 130 mil vídeos, 25 mil a mais do que os 105 mil registrados no estudo inicial.
O levantamento também aponta estratégias de adaptação dessas comunidades digitais. Segundo o NetLab, ao menos 20 canais mudaram de nome desde 2024 e alguns removeram referências diretas à chamada “machosfera”, termo usado para designar ambientes online associados à disseminação de misoginia. Dos 137 canais identificados originalmente, apenas 14 foram removidos da plataforma.
Enquanto o PL 6075 ganha apoio social e gera debate, o Senado Federal também discute medidas para ampliar o combate à discriminação de gênero. O Projeto de Lei nº 896/2023, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), propõe incluir a misoginia na Lei de Racismo (Lei nº 7.716/1989), tipificando o ódio e a discriminação contra mulheres como crime, com pena prevista de dois a cinco anos de reclusão, além de multa.
O texto já passou pela Comissão de Direitos Humanos (CDH) e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas voltou à pauta para análise de emendas antes de seguir adiante no Congresso. Organizações feministas e entidades de direitos humanos acompanham a tramitação das propostas como parte dos esforços para enfrentar a normalização da violência de gênero também no ambiente digital.
